Em 2025, o compositor Arnaldo Antunes lançou “Tanta pressa pra quê?”, uma música que pergunta, basicamente, se faz sentido viver nesse ritmo. A canção descreve uma vida tomada por estímulo demais, opiniões chegando de todo lado o tempo inteiro e a sensação de estar afundando na própria tela do celular, sem tempo de processar nada.
Entre notificações, reuniões, tarefas domésticas e a lista de coisas para resolver antes de dormir, a agenda de boa parte das pessoas hoje se enche depressa. Um compromisso empurra o próximo, e quase nunca sobra um intervalo para parar e sentir o que aconteceu naquele dia, naquela semana, naquele ano inteiro. Os acontecimentos vão se acumulando como itens riscados de uma lista, sem espaço para virarem alguma coisa mais elaborada do que isso.
Essa pressa constante tem uma lógica por trás, em que ser rápido e produzir bastante em pouco tempo virou sinônimo de estar indo bem. Um calendário cheio, porém, não garante sentido para a vida. Dá para acumular conquistas, tarefas e vivências novas durante meses a fio e, mesmo assim, sentir um vazio por dentro que tarefa nenhuma consegue preencher.
Consumir e produzir mais não preenche o vazio
Boa parte da correria atual funciona como um jeito voraz de lidar com o mundo, “engolindo” tudo o que aparece pela frente sem “mastigar” direito. Consumir mais conteúdo, mais produto, mais experiências novas vira, nesse ritmo, objetivos em si mesmos, ainda que nada disso seja realmente processado.
Os eventos se acumulam, mas quase nunca têm o devido tempo de processamento. Falta o intervalo que poderia transformar cada vivência em algo elaborado, digerido, em vez de apenas mais um check na lista das coisas a fazer. É a mesma lógica da carga mental, em que a tentativa de dar conta de tudo ao mesmo tempo acaba cobrando um preço que ninguém contabilizou.
Ficar ocupado como forma de não pensar no futuro
Manter a agenda sempre cheia também ajuda a adiar outra coisa difícil de encarar, que é o tanto que o futuro continua incerto para qualquer pessoa. Enquanto existe mais uma tarefa ou obrigação pela frente, sobra pouco tempo para essa dúvida sequer aparecer.
Ficar em movimento constante empurra pra depois o momento de lidar com os incômodos. Abrir mais uma aba, marcar mais um compromisso, responder mais uma mensagem é mais simples do que ficar parado diante do que não tem solução à vista. Vale a pergunta que já levantei em outro texto, sobre do que você se ocupa para não se ocupar do seu desejo.
Cobrar de si mesmo sem que ninguém precise pedir
O filósofo Byung-Chul Han descreve a sociedade contemporânea como uma “sociedade do desempenho”, em que cada um vira, ao mesmo tempo, patrão e empregado de si mesmo, exigindo produção sem que exista mais alguém de fora dando ordens. As metas a se alcançar já se tornam incorporadas como do próprio sujeito, e ninguém de fora precisa insistir nelas para que cada um se cobre produtividade.
Numa época meritocrática em que o sucesso parece depender só do esforço individual, é difícil contar com uma rede de apoio que diga que descansar também é preciso.
O corpo não acompanha o ritmo
Esse tipo de esforço contínuo cobra um preço físico, que costuma aparecer antes de a pessoa perceber que precisa parar. Cansaço que o fim de semana não resolve, sono ruim, ansiedade constante e falta de vontade de sair da cama mesmo depois de dormir bastante são sinais concretos de um corpo que já passou do limite. Um burnout pode estar a caminho. Quando o descanso fica todo concentrado no fim de semana, ele raramente dá conta, como escrevi ao perguntar se sextar é só às sextas.
Capacidade de contemplar
“Dias Perfeitos”, filme de Wim Wenders de 2023, mostra o oposto exato dessa lógica acelerada. O protagonista limpa banheiros públicos em Tóquio e vive uma rotina que, vista de fora, parece repetitiva, quase sem acontecimento nenhum. Ele fotografa a luz que passa entre as folhas das árvores, ouve as mesmas fitas cassete, cuida das próprias plantas, e encontra nesse ritmo mais lento uma satisfação que a produção incessante dificilmente oferece.
A atenção sempre voltada para a tarefa seguinte ou para a próxima compra deixa pouco espaço interno para notar uma xícara de café, o formato de uma sombra, o silêncio de um trajeto repetido. Reparar nesses detalhes permite estar presente no momento, em vez de só atravessá-lo correndo para o que vem depois.
Dar tempo para digerir o que se vive
Criar intervalos antes de seguir direto para a próxima tarefa ajuda a interromper esse ciclo incessante. Alguns minutos de silêncio depois do trabalho, uma caminhada sem celular, respiração pausada e consciente ou escrever algumas linhas sobre a semana podem criar uma pausa e momento de reflexão. É o mesmo tempo para criar que costuma ser o primeiro a sair da agenda quando ela aperta.
Transformar o que se vive em experiência de verdade, com sentido, pede mais do que só acumular. Nenhuma dessas pausas resolve sozinha o cansaço acumulado, mas cada uma delas devolve um pouco do tempo que a pressa toma.
Como a terapia pode ajudar
Na terapia, você separa um tempo por semana que é só seu, dedicado a pensar e digerir o que foi vivido, pausando a rotina e se permitindo refletir. Atendo em português, no consultório em São Paulo e online, inclusive brasileiros que moram fora do país. Se a correria tem sido constante e você tem tido dificuldade de desacelerar, entre em contato pelo WhatsApp e vamos conversar!
Referências
- JORGE, Denise Batista Pereira. Na afinação do tempo vivido: música, alimentação e imaginação. São Paulo: Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica (SBPA), 2020. Disponível em: sbpa.org.br/monografias/m-0154.
- HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Tradução de Enio Paulo Giachini. Petrópolis: Vozes, 2015.
- ANTUNES, Arnaldo. Tanta pressa pra quê?. 2025. Canção.
- WENDERS, Wim. Dias perfeitos. Japão, Alemanha, 2023. 1 filme.