No trabalho, na escola das crianças ou entre os amigos novos, quem convive com você no exterior encontra a sua versão de agora. Sabe a sua profissão, reconhece o seu sotaque e talvez conheça até o nome da cidade onde você nasceu. Já a casa de infância, o apelido que só a família usa ou o caso daquele professor que marcou a sua adolescência costumam ficar de fora dessas conversas com quem entrou na sua vida só depois da mudança.
Quem vive em outro país pode construir ali um presente e um futuro, mas o passado não vai estar lá de forma tão clara. Muitas pessoas que moram fora comentam sentir essa ausência sem saber dizer de onde ela vem. A rotina funciona, os amigos existem, e ainda assim falta alguém que tenha visto de perto a sua trajetória antes do embarque.
Recomeçar do zero
Chegar num lugar onde ninguém conhece o seu histórico pode trazer uma sensação de liberdade. Os papéis que você sempre representou, do filho mais responsável, da amiga que resolve tudo, ou do colega tímido da escola, deixam de ser cobrados por quem não conhecia você antes. Surgem outras oportunidades, e muitos afirmam ter descoberto inclusive uma força que não sabiam ter, capaz de permitir montar uma vida nova a partir de quase nada.
O outro lado aparece nos dias em que faz falta alguém que saiba da sua história e de tudo o que você viveu antes. Ao entrar em contato com uma notícia ruim vinda do Brasil ou uma lembrança de uma pessoa querida que faz aniversário de falecimento, a falta de alguém para dividir o que se sente se faz mais presente. Explicar tudo isso para quem não conheceu aquela pessoa, um lugar de que você gostava ou o contexto da época pode ficar muito difícil, e às vezes o mais comum é guardar tudo para si.
Contar a própria história só para quem ficou
Redes sociais e chamadas de vídeo facilitam manter contato com a família e os amigos no Brasil. Muita gente acaba compartilhando o dia a dia só com quem está lá, enquanto no novo país quase ninguém escuta esses relatos. Não conseguir construir proximidade com quem você convive diariamente pode trazer uma sensação de solidão e vazio, que aparece mesmo quando se tem companhia, uma vez que não existe um mundo afetivo em comum.
A identidade é, em boa parte, uma história que cada um constrói e conta sobre si mesmo, e que vai mudando com o tempo. Para continuar fazendo sentido, ela precisa de ouvintes. Se a infância e a juventude só circulam entre quem está longe e o presente se passa entre quem não conheceu esses momentos, pode-se criar partes da personalidade que só têm espaço para aparecer em alguns ambientes, mas não em outros, o que gera uma tensão.
Você não é mais o mesmo
No Brasil, nas férias ou numa viagem rápida, o movimento se inverte. Ali estão as pessoas que conheceram você criança, mas elas nem sempre acompanharam o que mudou em você. Alguém que mora há anos no exterior pode voltar ao próprio país e ter dificuldades para se reconhecer quando amigos de longa data ou parentes fazem brincadeiras ou alusões a uma imagem antiga, que já não corresponde a quem ela se tornou.
Isso pode trazer uma sensação de divisão, como se dois grupos conhecessem metades diferentes de você. Quem ficou se lembra de quem você era, e quem está por perto convive só com quem você é hoje. Às vezes, pode ser difícil até para você juntar essas duas partes de si.
Compartilhar o passado no novo país
Quem você conheceu depois da mudança não acompanhou a sua infância, e essa falta faz parte do luto migratório. Algo desse tempo, contudo, pode ser levado junto quando você decide se esforçar para construir relacionamentos mais profundos com as pessoas próximas. Uma integração saudável costuma envolver trazer um pouco do que se viveu no passado e dividir isso com quem está agora do seu lado.
Na prática, isso pode ser contar a um amigo daqui de onde veio um apelido de família, cozinhar uma receita da avó que lembra os almoços de domingo, mostrar fotos antigas guardadas ou levar alguém para visitar a sua cidade nas férias. Aos poucos, as pessoas ao seu redor descobrem também um pouco da sua origem e passam a fazer parte dela.
Como a terapia pode ajudar
Na minha experiência clínica, a sensação de que ninguém por perto acompanhou o seu passado aparece com frequência, mesmo quando a rotina de trabalho no exterior vai bem. Na terapia, você tem um espaço para contar sua história desde o começo, sobre o que ficou no Brasil e o que está sendo construído agora, sem precisar escolher entre uma parte e outra.
Se você tem sentido falta de alguém que saiba de onde você veio, entre em contato pelo WhatsApp e vamos conversar!
Referências
- CENTRO DE ESTUDOS PSICANALÍTICOS (CEP). Debate: Migração e a perda da língua materna – 18.07.2019. YouTube, 18 jul. 2019. Vídeo (aprox. 2 h). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=oc13LJVK018. Acesso em: 1 out. 2026.
- GONZÁLEZ, Juan Miguel Rosa; OLIVEIRA, José Arimatés de. Os efeitos da expatriação sobre a identidade: estudo de caso. Cadernos EBAPE.BR, v. 9, n. 4, 2011. Disponível em: http://www.scielo.br/j/cebape/a/FcpwQ98tNrKW8crLnhRs3Wx/?lang=pt.
- BLANCHARD, Anita Ribeiro. A trajetória arquetípica do imigrante: identidade, crise, transições. Apresentação de slides no VIII Congresso Latino-Americano de Psicologia Junguiana, Bogotá, 2018.
- MALLARD, Simone das Dores Sena; CREMASCO, Maria Virginia Filomena; METRAUX, Jean-Claude. Estrangeiridade e vulnerabilidade psíquica: algumas contribuições psicanalíticas. Psicologia: Teoria e Pesquisa, v. 31, n. 1, p. 125-132, 2015. Disponível em: https://www.scielo.br/j/ptp/a/dNxPdNVJNg4Y954NK6yY4mQ/?lang=pt.