Ao morar no exterior, muitos brasileiros comentam sentir falta de um acolhimento que aprenderam a esperar de qualquer pessoa, mesmo de alguém que acabaram de conhecer. Em boa parte dos países, contudo, esse gesto não costuma acontecer de forma espontânea, e essa ausência pode doer muito, principalmente num contexto no qual quase não se conta com rede de apoio.

Uma pesquisa sobre brasileiros expatriados numa multinacional norueguesa entrevistou seis profissionais enviados para países como Noruega, África do Sul e Espanha, e chegou a uma explicação para essa dor. O mesmo traço cultural que facilita a vida de quem mora no Brasil, a familiaridade com as diferenças e a proximidade fácil dos outros, torna difícil conviver em sociedades mais fechadas e reservadas.

A tolerância brasileira à diferença

Quem cresce no Brasil convive, dentro do próprio país, com contrastes regionais, raciais e sociais diversos. Essa mistura cria uma certa tolerância à diferença que ajuda bastante quando você se muda para um lugar cosmopolita e no qual a diversidade dá espaço a mais formas de viver.

Complicado é ter que lidar com outras culturas que funcionam de outra forma. Em lugares mais formais e conservadores, ou até mesmo somente menos diversos e mais neutros na forma de expressar sentimentos, a mesma flexibilidade que funcionava a seu favor no Brasil vira motivo de estranhamento. Você espera um tipo de acolhimento espontâneo que, ali, não faz parte do código local, e sofre quando ele não vem.

A frieza como código cultural

Um dos entrevistados da pesquisa resumiu bem essa dissonância ao falar sobre a África do Sul, dizendo que “a gente tá acostumado aí no Brasil a conversar e se ajudar, mas aqui ninguém passa a mão na sua cabeça não”. Outro relato, sobre a Noruega, descreve uma sociedade mais individualista, igualitária, reservada, que valoriza fatos e desconfia de quem se destaca socialmente.

Frieza foi a palavra mais repetida por brasileiros expatriados para descrever o país de destino, citada 16 vezes em 24 entrevistas, o que ajuda a validar que você não está exagerando ao se sentir assim.

A explicação de quem vive isso na pele é que “não, não é má vontade e nem é aquele medo de que eu pudesse tomar o lugar deles […] é o jeito deles mesmo entende?”. Nomear a diferença como código cultural ajuda a combater o estranhamento inicial e tirar um possível peso de interpretar o comportamento do outro como uma rejeição pessoal. Quando essa frieza cultural vira o centro do desconforto, é importante ter espaço para aprender a separar o que é ajuste cultural do que pede acompanhamento profissional.

Chegar sozinho no país novo

Ter outros brasileiros por perto amenizou a adaptação em todos os relatos dessa pesquisa, apesar de não ser nenhuma garantia. Quem chegou como o primeiro brasileiro da empresa, sem rede nenhuma, descreveu os primeiros meses como muito mais desconfortáveis e difíceis do que quem já encontrou compatriotas no destino.

Buscar uma comunidade brasileira, ou mesmo de outros expatriados no exterior, pode funcionar como estratégia de sobrevivência e de ajuste cultural. Ter com quem dividir o estranhamento tira parte do peso de enfrentar um código novo sozinho e traz um lugar onde o jeito brasileiro de se relacionar ainda faz sentido.

Como a terapia pode ajudar

Atendo brasileiros no exterior há anos, em mais de dez países. Reconhecer que a frieza que você sente tem explicação cultural, e que buscar outros que passam pelo mesmo que você funciona como estratégia, pode ajudar muito a atravessar esse processo com menos culpa ou sensação de incapacidade.

Para cuidar ainda mais deste processo, caso o desconforto vire isolamento, uma tristeza que não passa, falta de vontade de levantar da cama ou a sensação de que você não pertence a lugar nenhum, vale investir em um espaço para poder olhar para isso com mais cuidado. Se você se identificou com alguma dessas situações, entre em contato pelo WhatsApp e vamos conversar!


Referências

  • BARBOSA, Rafaella das Neves. As implicações das características culturais brasileiras na adaptação de expatriados. 2010. Dissertação (Mestrado em Administração) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2010.
  • GERVASONI, Vânia Carvalho; KUBO, Edson Keyso de Miranda; FARINA, Milton Carlos. Distância psíquica no processo de internacionalização: a percepção dos expatriados brasileiros. Internext, v. 9, n. 3, p. 57-77, 2014. Disponível em: internext.espm.br/internext/article/view/193.
  • TEIXEIRA, Luiz Antônio Antunes; SILVA, Jersone Tasso Moreira; LESSA, Luciana Cristine de Carvalho. Executivos brasileiros expatriados: percepções da nova função e influência da distância psíquica. REDES, Santa Cruz do Sul, v. 16, n. 1, 2011. Disponível em: redalyc.org/pdf/5520/552056844002.pdf.